UFC e A Comunidade: como um projeto de extensão transforma o letramento digital do Planalto Pici

Veja a página do projeto: https://ufc-e-a-comunidade.web.app/

Desde 2017, o projeto de extensão “UFC e A Comunidade” promove o letramento digital de adultos moradores do Planalto Pici, bairro situado no entorno do Campus do Pici da Universidade Federal do Ceará (UFC). As atividades formativas em multimídia acontecem no bloco didático do Bacharelado em Sistemas e Mídias Digitais (SMD), sempre que há laboratórios e outros espaços disponíveis para receber o grupo.

Atualmente, o projeto tem como público principal um grupo de mulheres artesãs ligadas à Rede Estrela de Iracema. Além das oficinas de letramento digital, essas mulheres desenvolvem atividades de economia solidária — confecção de bonecas de pano, bordados e outras peças vendidas em feiras da cidade — e enxergaram nas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) um caminho tanto para a inserção digital quanto para o aprimoramento da própria atividade econômica, já que passaram a divulgar seu trabalho nas redes sociais.

Voluntários e participantes do projeto reunidos em uma das oficinas realizadas no bloco didático do curso de Sistemas e Mídias Digitais da UFC.

A ideia do projeto surgiu quando o bloco didático do SMD foi inaugurado. O objetivo era que existisse uma convivência entre os residentes do Planalto Pici e os alunos da universidade. Inicialmente, o intuito era trabalhar com jovens que residem no entorno do Campus do Pici, mas foi a própria comunidade que sugeriu que se iniciasse por um grupo de mulheres artesãs do bairro, interessadas em aprimorar seu conhecimento das mídias digitais para melhor comercializar seus produtos.

Considerando a expertise do curso de Sistemas e Mídias Digitais em realizar momentos variados de formação em recursos multimídia, a proposta passou a consistir na oferta de oficinas de letramento digital, ministradas pelos próprios estudantes do curso, sob orientação da professora Cátia Luzia Oliveira da Silva orientadora do projeto. A importância da proposta está em aproximar a UFC da comunidade do Planalto Pici, promovendo uma convivência saudável e oferecendo oficinas que atendam às necessidades do público-alvo, oportunizando uma formação que promova a inclusão social. Mais do que ensino técnico, o projeto é descrito por seus organizadores como uma oportunidade de promover o encontro e a valorização de culturas e de saberes.

Durante as oficinas, voluntários auxiliam individualmente as participantes a explorar recursos do smartphone, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada uma.

Segundo a coordenação do projeto, a ação de extensão busca, ao mesmo tempo: elevar a qualidade da formação multimídia dos moradores do Planalto Pici; construir experiências práticas de Educomunicação e Design Instrucional que vão além do conhecimento puramente técnico; aproximar comunidade e universidade em uma via de mão dupla; e oferecer aos estudantes de SMD uma formação profissional mais completa, marcada por uma postura pró-ativa em atividades interdisciplinares.

“A ação funciona na prática por meio de oficinas multimídia”, resume a descrição oficial do projeto — uma frase simples que esconde um processo de escuta constante entre estudantes e comunidade, refeito a cada semestre.

Equipe de voluntários do projeto em atividade externa nas dependências do Campus do Pici da UFC.

Para os estudantes, participar do projeto como voluntários passou a ser tratado como parte importante da formação profissional. A partir do momento em que esse processo formativo se consolidou, o curso de Sistemas e Mídias Digitais passou a valorizar um retorno social mais direto, construído por meio de experiências didáticas reais: são os próprios alunos que planejam e desenvolvem cada oficina, sempre respeitando os dias e horários que melhor atendem ao público-alvo.

As inscrições para novos voluntários acontecem no início de cada semestre e são divulgadas no Instagram do projeto, @ufceacomunidade, além das listas de e-mail dos alunos de SMD.

O impacto do “UFC e A Comunidade” quanto o de Cybele, estudante de Sistemas e Mídias Digitais que entrou no projeto como voluntária em 2025.1, ainda no primeiro semestre do curso.

O primeiro contato com a iniciativa aconteceu por indicação: uma amiga mostrou a chamada de voluntários, e Cybele decidiu se inscrever. A experiência, no entanto, foi além do voluntariado. Depois de um semestre em campo, ela conquistou uma bolsa de extensão por processo seletivo.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória no projeto envolve o acompanhamento próximo de uma das artesãs, Dona Cassiana. Segundo Cybele, o efeito das oficinas era quase imediato: bastava uma aula para que, no dia seguinte, o aprendizado já aparecesse nas redes sociais da participante.

“Desde que entrei no projeto eu trabalho com uma aluna em particular, a Dona Cassiana, e pude ver o desenvolvimento dela a cada aula. Bastava uma aula para no dia seguinte eu ver nas redes sociais ela fazendo exatamente aquilo que ensinamos. Às vezes vejo ela postando sozinha fotos de suas viagens e até respondendo meus stories.” — Cybele, estudante de SMD

A voluntária também destaca a introdução de conteúdos sobre inteligência artificial nas oficinas, especialmente os riscos de golpes digitais. Segundo ela, as participantes já chegavam às aulas com repertório próprio sobre o tema, fruto da própria vivência online.

“Ao falar sobre os perigos e golpes, pude ver que elas já estão bem atentas a essa nova ferramenta, já tinham inúmeras histórias que puderam compartilhar.” — Cybele, estudante de SMD

Ao final do relato, Cybele deixa um recado para quem pensa em entrar no projeto: mais do que ensinar, é preciso observar a experiência das participantes com as mídias digitais.

“Falaria para ir fundo e, além de ensinar, observar também a experiência das alunas com as mídias digitais, como elas interagem e quais suas dificuldades. Particularmente, um estudante do SMD e futuro profissional atuante na área poderia aprender muito sobre as dificuldades do público mais idoso com essas plataformas, ícones, padrões e formas das redes se comunicarem com eles.” — Cybele, estudante de SMD

Cybele mostra fotos e conteúdos no celular a uma participante do projeto, em uma das dinâmicas de trocas de saberes das oficinas.

Foi dentro desse esforço de comunicação que o “UFC e A Comunidade” ganhou também um site próprio, ainda em fase de estruturação, reunindo em um único endereço o histórico do projeto, os relatos de voluntários e participantes e os canais para quem deseja se inscrever como voluntário. A página pode ser acessada em https://ufc-e-a-comunidade.web.app, e seu conteúdo será atualizado conforme o projeto avança.

A comunicação da iniciativa também se apoia fortemente nas redes sociais. É pelo Instagram do Instituto UFC Virtual, e especificamente pelo perfil @ufceacomunidade, que são divulgadas as chamadas para novos voluntários a cada início de semestre, o cronograma de oficinas e os registros das atividades realizadas junto à comunidade do Planalto Pici.

Mais do que uma sequência de oficinas técnicas, o “UFC e A Comunidade” é descrito por seus próprios organizadores como uma oportunidade de promover o encontro e a valorização de culturas e saberes. De um lado, o conhecimento técnico dos estudantes de mídias digitais; do outro, a experiência de vida, o savoir-faire artesanal e as histórias das mulheres do Planalto Pici.

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